Ojos de Brujo |
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Ojos de Brujo “Techarí Live” Absolutamente inovador, mas fiel às suas raízes ancestrais, o Ojos de Brujo se destaca entre os grupos mais originais do novo milênio. Formada no cadinho cultural da fervilhante Barcelona, a banda se posicionou num nicho exclusivo, com sua musicalidade vibrante e única, seu estilo radical e contemporâneo e seu vigoroso espírito coletivo, que inunda de brilho tudo que faz. Sua música reflete as heranças espanhola e cigana, mas passa a anos-luz do flamenco tradicional. As apresentações ao vivo são simplesmente lendárias, e vêm deixando uma trilha de shows superlotados e multidões chapadas desde o lançamento na Europa de Techari, seu longamente aguardado terceiro CD, ano passado. Essas performances ao vivo foram captadas em toda a sua efervescência nessa nova dupla dinâmica de DVD/CD, “Techari Live”, que ainda inclui um documentário sobre a turnê, cenas de bastidores e vídeo clipes. Esse combo é a versão ao vivo de uma ambiciosa empreitada produzida pelo próprio grupo, gravada em Cuba, Nova York e num estúdio aos pés dos Pireneus, pertinho da terra natal de Salvador Dalí. Cheia de idéias musicais ousadas desenvolvidas ao longo da aclamada turnê de Barí, quando eles deslumbraram multidões em todo o mundo em festivais como o Womad, o Montreal International Jazz Festival e o Nova York Summerstage, Techarí representa o espírito independente da banda e a sua dedicação à ruptura de barreiras e a experiências que utilizem o extraordinário poder sonoro da liberdade musical coletiva. Um dos destaques desse novo lançamento é a interpretação do Ojos para o clássico de Bob Marley “Get Up Stand Up.”, tanto a versão ao vivo quanto a de estúdio, esta especialíssima, onde eles um usam uma base de flamenco tango que logo se transforma numa forma moderna de rumba flamenca/son cubano, com violões flamenco, palmas e cajón fazendo a levada, acompanhados de piano e metais cubanos, envenenados de um jeito que só o Ojos sabe fazer. Barcelona tem sido um centro de criação musical desde a explosão da rumba catalã, no final dos anos 50, quando imigrantes andaluzes começaram a absorver os ritmos cubanos das grandes orquestras dos anos dourados. Faz todo o sentido do mundo que as raízes do Ojos de Brujo estejam fincadas numa das cidades européias mais dinâmicas e multifacetadas em termos de cultura, no entanto, o grupo costuma ser recebido mais calorosamente no sul, na terra do flamenco. A banda teve sua origem numa série de jam sessions promovidas pelos jovens músicos de cabeça mais aberta da cidade. Quando o percussionista Xavi Turull encontrou-se pela primeira vez com os outros membros do grupo, eles ainda eram um coletivo musical anárquico e completamente imprevisível. O mais velho, o estadista da ODB, Turull já tinha tocado com a Amalgama, a seminal banda de flamenco fusion, mas quando o grupo acabou, ele voltou para Barcelona. A sua chegada não passou despercebida e ele logo foi convidado a tocar naquelas jam sessions e dar uma mão no desenvolvimento da banda. A figura central do grupo era e ainda é o violonista de flamenco Ramón Giménez, um cigano que já tinha arrastado a asa para várias bandas e gêneros – incluindo hip hop e heavy metal – antes de se juntar a Xavi, à extraordinária cantora Marina ‘la Canillas’ Abad, ao instigante tecladista e alquimista do scratch DJ Panko, ao baterista Sergio Ramos, ao percussionista e mago dos vocais Maxwell Wright, ao violonista de flamenco malaguenho Paco Lomeña e ao baixista Javi Martin. Antes da ODB, a cantora Marina teve passagens por bandas de punk rock e flamenco e atuou no teatro. “Ela morava numa invasão com um bando de caras alternativos que estavam tentando por em prática atividades de cunho social. Ela provavelmente é a pessoa mais politizada e com mais preocupações sociais da banda. Dá para ver isso pelas suas letras,” explica Xavi. Para que suas letras densas e expressivas se tornassem inteligíveis para todos os seguidores entusiásticos que banda conquistou, eles traduziram-nas para línguas tão diversas quanto o grego, chinês e senegalês. Os músicos explicam a razão do nome Ojos de Brujo (Olhos de Bruxo). “Escolhemos esse nome porque achamos que magos, bruxas e feiticeiros são pessoas que vêem mais do que os outros. Eles são mais conscientes do que rola nesse mundo problemático. E a gente acha que a música – e todas as formas de arte – devem tentar tornar o mundo mais consciente. E também, ‘brujo’ é uma palavra fortemente ligada ao flamenco. Os ciganos sempre tiveram suas bruxas e magos para protegê-los.” O sangue cigano corre nas veias do grupo e o violonista Ramon é o guru espiritual nesse departamento. “Não gostamos da globalização porque ela está tentando destruir a cultura das minorias,” afirma Xavi. “A gente acha que toda cultura minoritária tem algo a oferecer e não podemos perder toda a sabedoria que essas culturas ancestrais acumularam em todos os cantos do mundo. Os ciganos estão perdendo a sua língua, o romani, e todos os seus dialetos porque ninguém está fazendo nada para preservá-los. Eles sempre foram reprimidos. Usando palavras ciganas quase apagadas do vocabulário moderno, damos apoio a Ramon na sua luta para evitar o desaparecimento de sua cultura.” Foi no segundo CD, Bari, que os frutos do som do Ojos de Brujo realmente amadureceram. “A gente decidiu largar a gravadora e tomar as rédeas da nossa carreira como grupo, tanto em termos de gestão quanto de finanças.” Bari também foi o seu CD de maior sucesso até agora e conquistou para o ODB legiões de fãs em todo o mundo com faixas irresistíveis como ‘Ventilaor R-80’, ‘Tiempo de Soleá’ e ‘Ley de Gravedad’. A palavra cigana barí é difícil de traduzir, mas o seu significado é fácil de entender: quando está tudo perfeito na vida, você tem barí. ODB estava criando um novo estilo de música e o público percebeu. Eles trabalhavam com DJs fazendo scratch em ritmo de flamenco e, em contrapartida, levavam o flamenco para a praia urbana. Nos shows, eles iam do hip hop ao jazz, rock, ragga, funk, e mais uma porção de outros territórios musicais: latino, leste da Ásia e hindi. “Nossos parâmetros eram tão amplos, e eu acho que foi isso que fez as pessoas adorarem o que a gente estava fazendo,” Xavi explica. Em 2005, a banda rebatizou o seu selo espanhol. O novo nome, Diquela, é uma palavra cigana que significa: ‘olha!’. “É uma nova fase,” diz Xavi. “Uma dos desafios que o sucesso traz é a busca de formas de se manter autêntico. E a gente está de fato tentando achar uma forma de ser livre. É por isso que o novo disco é chamado Techarí, que significa ‘livre” na língua cigana.” As gravações de Techarí começaram nos últimos dias de março de 2005 e se encerraram no fim de outubro. Nesse intervalo, a banda fez duas turnês internacionais, o que interrompeu muito o processo de gravação. “Gravar e excursionar ao mesmo tempo foi meio pirante, mas o resultado foi fantástico,” lembra Xavi. “Finalmente a gente chegou ao ponto em que o nosso som está exatamente do jeito que a gente quer.” Manter o processo criativo livre é a essência do grupo. Xavi ri e explica: “A gente nunca sabe mesmo o que vai fazer. Todo mundo chega com idéias novas e todo mundo decide o que vai ser usado ou não. Isso torna o processo muito lento e complicado, mas o resultado final compensa. São oito pessoas juntando seus sentimentos, conhecimentos e sabedoria para um objetivo comum.” Alguns convidados especialíssimos participaram dessa performance extraordinária em Barcelona, berço da banda: Faada Freddy do grupo de hip hop senegalês Daara J, o pianista cubano Roberto Carcassés, o cubano Raúl Rodríguez do Son de la Frontera, que toca violão flamenco e très, e o percussionista indiano Gyan Singh. Também se apresentaram na festa o cantor de flamenco clássico Martirio e a lendária banda espanhola Patriarcos de la Rumba. A banda faz questão de chamar a atenção para o fato dessas participações resultarem de amizades recentes e não de uma cínica estratégia de marketing. Para o pessoal do Ojos de Brujo, todo o processo tem que ser orgânico, visceral, e eles se deram muito bem em criar o seu próprio estilo com base em elementos extremamente díspares. Além do visual e áudio dessa fantástica performance ao vivo, Techarí Live inclui um documentário sobre a turnê, cenas dos bastidores e vídeo clipes. Muito mais do que simplesmente um disco, aqui se vê uma banda estendendo seus braços para o mundo com imagens e sons de liberdade criativa, espírito coletivo e aventura musical. “Um dos nossos maiores problemas é que nós sempre gastamos dinheiro demais. A gente se sacrifica pela arte porque quer que as coisas aconteçam do jeito que nós as imaginamos. Para ter lucro com shows, talvez a gente devesse viajar só com 10 pessoas, mas sempre carregamos a tropa toda. E estamos sempre incorporando gente nova. O mais recente foi Carlos Sarduy, um incrível músico de Cuba que toca trompete e fluegelhorn. Sempre foi assim. Se você vir só alguns poucos de nós em cima do palco, pode crer, alguém colocou um revólver na nossa cabeça!”
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