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PATATO
Graças ao sucesso do filme e dos CDs sob a marca Buena Vista Social Club, a música cubana voltou a ter a popularidade merecida. Patato: The Legend of Cuban Percussion traz para o público do século XXI a oportunidade de conhecer um dos músicos que fez do som da ilha caribenha um importante componente da cena musical mundial a partir de meados do século passado. Já na casa dos 70, mas ainda em forma, Carlos "Patato" Valdes é considerado um dos melhores congueros de todos os tempos. Ele tocou com a maioria das grandes figuras do movimento de jazz latino dos anos 50, incluindo um longo período com o revolucionário septeto de Herbie Mann e várias gravações com ninguém menos que Tito Puente. Como Niccolo Paganini fez com o violino e Jimi Hendrix com a guitarra, Patato revolucionou a maneira como as pessoas ouvem o seu instrumento. Patato inventou uma conga mais fácil de afinar que se tornou um padrão para o Latin Percussion, o mais famoso fabricante de congas. A abordagem melódica que Patato dá ao instrumento o faz soar como um canto, e seus dedos estão tão ágeis hoje quanto nos tempos em que tocava com Arsenio Rodriguez em Nova York, abrindo os caminhos que levaram à criação do gênero musical que hoje chamamos de salsa. Esse disco traz gravações feitas nos anos 90, com alguns dos muitos netos musicais de Patato.
Praticamente todo percussionista que tocou salsa, son cubano ou jazz latino nos últimos quarenta anos tem uma dívida com Patato. Em The Legend of Cuban Percussion, músicos como Orestes Vilato e Jose Luis "Changuito" Quintana (o ex-baterista do supergrupo cubano Los Van Van que definiu o ritmo songo) se juntam ao mestre. Mas o disco é repleto de outras surpresas: o cantor da África Ocidental Samba Mapangala e Abdou M'Boup, um mestre no kora (um instrumento de cordas do Senegal), se juntam a um impressionante grupo de convidados especiais. O resultado é uma disco que explora as conexões musicais entre gerações e entre continentes. Parte jazz, parte world music, parte son, Patato: The Legend of Cuban Percussion inclui flautas cool, calientes sessões de metais de salsa, vocais celestiais e uma levada segura e contínua.
Nascido em uma família de músicos de Havana em 1926, Patato cresceu tocando um violão cubano conhecido como tres, kalimba* e vários outros instrumentos. Ainda adolescente, Patato já era considerado um dos melhores tocadores de conga de Cuba, e durante um período em que a alta sociedade americana freqüentemente veraneava em Havana, Patato se tornou um dos músicos de destaque no famoso Conjunto Casino. Ele também tocou com Mongo Santamaria e Chano Pozo, músico que, com Dizzy Gillespie, ajudou a criar o movimento do jazz latino. Como esses e outros grandes músicos, Patato imigrou para os Estados Unidos para se estabelecer na emergente cena jazz de então e desde 1954 mora em Nova York. Lá ele se tornou um dos músicos mais requisitados. Contratado inicialmente por Tito Puente, Patato depois tocou com o grande Machito, com Kenny Dorham e mais tarde se juntou a Herbie Mann numa parceria musical que durou quase uma década.
"Uma personalidade indomável e um cara divertido, ele é estimulante e brincalhão ao mesmo tempo." Esse foi o depoimento de Herbie Mann sobre Patato em 1965, no lançamento do disco Standing Ovation at Newport, pela Atlantic Records. E de fato, além de músico, Patato ficou conhecido como uma grande figura. Seja pulando descalço em cima de suas congas ou aparecendo na televisão, a imagem de Patato é a de um cara que sabe se divertir, e não se importa de dividir essa sabedoria com os outros. Talvez, o momento mais incrível de Patato tenha sido a sua participação no filme E Deus Criou a Mulher (1956), numa cena em que ele ensina ninguém menos que Brigitte Bardot a dançar o mambo.
Depois de deixar a banda de Herbie Mann em meados dos anos 60, Patato se juntou ao cantor Totíco, um amigo de infância de Havana, para gravar para a Verve o LP Patato y Totíco (1967). Esse disco registrou a vitalidade da onda de rumba que estava tomando de assalto a cidade de Nova York, e tinha como destaques os gigantes Israel "Cachao" Lopez no baixo e Arsenio Rodriguez no tres.
Nos anos seguintes, Patato gravou e excursionou com virtualmente todos os maiores músicos de jazz latino do mundo, inclusive Cachao e Machito. Em 1995, gravou o primeiro dos dois títulos da série Ritmo y Candela. O segundo viria um ano depois e os dois discos foram indicados para o Grammy na recém criada categoria de jazz latino. Patato: The Legend of Cuban Percussion é uma compilação desses dois títulos, e mesmo nessa gravação que inclui percussionistas de nível mundial, o som de Patato é inconfundível. As congas saltam da música, tagarelas e pulsantes, impulsionando a banda por estonteantes mudanças de ritmos, explodindo em surpresas. Os sons do swing, do jazz e da África Ocidental ecoam em faixas como "Señor Blues/Mbuka Enoka." E praticamente dá para ouvir o riso contagiante de Patato na irresistível "Yo Tengo Ritmo" - um trepidante arranjo à moda cubana para "I Got Rhythm", de Gershwin.
Jovens estrelas cubanas como Omar Sosa, Yosvany Terry e Ivan "Melon" também se juntam à farra e a sua participação no disco de Carlos "Patato" Valdes, unanimemente considerado um verdadeiro ícone cultural, representa a continuidade de um dos grandes legados da música latina. Produzido por Greg Landau, Patato: The Legend of Cuban Percussion é o registro de um dos maiores músicos cubanos dos últimos 50 anos passando o bastão para uma nova geração de talentos.
* Instrumento africano constituído por cerca de 22 a 28 placas metálicas sobre uma pequena caixa de madeira, tocadas com os dedos do executante. Instrumento muito importante na África sub-saariana.
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