Shrift |
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Shrift Talvez você esteja buscando algo mais intenso e mais elegante do que a última modinha que anda tocando por aí - talvez até algo meio, assim, misterioso. Talvez você esteja procurando por um formato novo de música, uma aparentemente espontânea fusão eletro-acústica de gêneros musicais. Talvez o que você esteja querendo mesmo seja uma música que te enfeitice com a uma delicada arquitetura e um humor cativante, que te embale, te faça entrar num alfa de felicidade, e tudo isso para logo te dar um susto carinhoso com uma repentina explosão de brilho calmo. Se você se encaixa nesse perfil, o novo CD do Shrift pode ser exatamente o que você está esperando. Lost in a Moment (Perdido em um Momento) - título mais adequado impossível - é o disco de estréia do Shrift, mas de forma alguma é a estréia de seus dois componentes, a cantora e compositora brasileira Nina Miranda e o produtor e homem das mil texturas Dennis Wheatley. Nina é uma das fundadoras do renomado grupo inglês Smoke City, que já emplacou vários hits na Europa com a sua mistura única de bossa nova, trip hop, jazz, reggae e funk. Em 1997, o Smoke City fez a trilha sonora para um comercial de jeans Levi's, e os clips de "Underwater Love", "Mr. Gorgeous" e "Águas de Março" tiveram forte presença nas telinhas. A voz e as letras inconfundíveis de Nina marcaram presença em projetos de artistas do gabarito de Bebel Gilberto, Daniel Jobim, Da Lata, e também no de grandes nomes da world music como Nitin Sawhney e Jah Wobble. Nina foi apresentada ao seu parceiro musical Dennis Wheatley logo após terminar o segundo CD do Smoke City. Dennis é mais conhecido pelo seu trabalho com o Atlas, uma banda inglesa de música eletrônica com a mania de pegar elementos pré-existentes (vocalistas brasileiros, quartetos de cordas, a música "Baltimore", de Randy Newman) jogá-los todos no liqüidificador e criar deliciosas vitaminas musicais dançantes de música étnica eletrônica. Nina conhecia o trabalho de Dennis no Atlas e se sentiu atraída pela "profundidade dos climas e a qualidade do som." Ela achou o trabalho dele cinematográfico, etéreo, e logo os dois estavam em Londres compondo juntos em diversos espaços de gravação, nenhum deles convencional. Algumas faixas foram gravadas numa sala com vista para o rio Tamisa, outras num apartamento localizado exatamente sobre a estação Farrington do metrô, e as demais no estúdio da casa de Dennis. Todos esses ambientes afetaram o som do Shrift, às vezes diretamente. Em uma faixa, se você prestar bastante atenção, vai ouvir o som das águas do rio batendo na beira. As duas primeiras criações da dupla, a viajante, meio disco "Airlock", e "Blue", esta mais climática, meio que espiritual, foram incluídas em duas compilações da Six Degrees. "Airlock", da coleção de Traveler de 2003, atraiu os olhares de Johnny Loftus, crítico do All Music Guide, que chamou a atenção dos leitores para os "sussurros e arrulhos" de Nina e "a batida sincopada e a manipulação de samples que soam como o tema musical de um filme da década de 70 tocado de trás para frente" de Dennis. Nina lembra que durante a gravação da música, ela se imaginava "uma brasileira quarentona, negra, alcoólatra, caída, mas ainda bonita, cantando numa boate no final dos anos 70”. In 2003, a Six Degrees lançou Torch, uma coletânea de canções de dor de cotovelo modernas, e a versão demo the "Blue" (ainda com o título inicial de "One") foi um dos destaques do CD. Os vocais dessa música foram colocadas enquanto Nina assistia a um filme feito por Dennis que mostrava um mar de guarda-chuvas na hora do rush de pedestres em Tóquio. Dennis criou um belo e melancólico cenário musical para a letra que Nina escreveu inspirada por essas imagens. Agora, finalmente, a crescente legião de fãs do grupo vai ter um disco com material inédito do Shrift para curtir, e eles não ficarão desapontados. Mesmo porque, as duas faixas da coletânea não elevaram muito as expectativas, já que ofereceram uma visão incompleta do talento da dupla. O clima de Lost in a Moment, como o próprio título indica, é no todo onírico e suave, quase místico às vezes, mas com um viés sofisticado e moderno. Alguns dos seus momentos mais tocantes são, na verdade, os mais suaves e menos complicados. "Hum", por exemplo, é construída sobre um único módulo de melodia descendente, sob a qual o ritmo se infiltra sutilmente e acima de tudo se destaca a voz telúrica de Guilherme Guimarães. Seu vocalise suave é ecoado por um cavaquinho pungente, enquanto o som de instrumentos de cordas se enlaça nas várias camadas de vocais. "Once Upon a Time" nos faz lembrar das trilhas sonoras dos primeiros filmes de Disney. Aqui, Nina reúne as suas nostálgicas letras docemente reconfortantes às sugestivas cordas de Piotr Jordan e Sinan Kadifachi. Num dado momento, as palavras mudam de inglês para francês, e Nina termina a música com o seguinte sentimento: "Se eu pudesse cantar um a canção para o seu coração, minha mensagem seria - não tenha medo, não tenha medo”. Se tudo isso soa meio relaxante demais para o seu astral no momento, tente "To the Floor", uma música que coloca a voz cool e tranqüila de Nina sobre breakbeats swingados, sons orquestrais, mais a sonoridade de big bands e de palmas, tudo criado por Dennis, tudo desembocando numa seção de dub que tece vocais múltiplos e tramas instrumentais antes de terminar numa torrente impressionista de cores sonoras. Ou o discretamente épico "Yes I love You", uma das faixas onde Chris Franck (do Smoke City e Da Lata) toca violão e percussão e faz um a bela viagem através do som de corais, do barulho de multidões e de um cello que, combinados, criam um complemento complexo para uma faixa liricamente minimalista e emocionalmente "maximalista". “As Far As I Can See” passeia a meio caminho entre o celestial mistério de “Once Upon a Time” e o ritmo contagiante de “To the Floor”, combinando harmonias vocais, violões cool, um acordeão selvagem e o trompete de Sinan Kadifachia com várias camadas de percussão. “Floating City” é uma faixa vigorosa que, ao mesmo tempo, faz um uso absolutamente original do complexo ritmo 6/8. A faixa traz um quase que infinito pacote de samples, e ainda por cima , tem um dos mais arrebatadores arranjos vocais do CD. Como que para enfatizar a sua amplitude musical, Nina e Dennis ancoraram o CD em duas versões diferentes da faixa título. A versão de abertura é como o som de uma festa elegante na praia, ouvido por alguém sentado na areia, perto da água – o som dos teclados comparável ao de peixes de brilho pálido nadando sob as águas, enquanto as ondas quebram gentilmente na areia e ruídos perdidos da multidão conseguem passar de vez em quando, junto com uma indistinta e ocasional sessão de cordas. Durante toda a faixa, Nina canta suavemente no seu ouvido sobre estar “perdida no tempo”. A última faixa do CD, “Lost in Portuguese (Perdido em Português)”, é sobre um homem à procura dele mesmo, e é reforçada por percussão brasileira e um ritmo de eletro-bossa. Talvez tudo isso soe como a descrição de algo que você nunca ouviu. Se assim é, é porque a música do Shrift é, de fato, diferente de tudo que você já ouviu. Então o que você está esperando? Não tenha medo. Ouça logo o disco. |
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