Zuco 103 |
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ZUCO 103 Whaa! Há algo na esfuziante energia da vocalista Lilian Vieira e na caudalosa generosidade de suas músicas que faz você se sentir feliz por ser gente. Esse mesmo algo faz você balançar a cabeça e sacudir as cadeiras. Aí entram o baterista e compositor Stefan Kruger (também conhecido como Stuv) e o tecladista e compositor Stefan Schmid para criar um acompanhamento igualmente inspirador e estimulante. Eles não se limitam a tecer bordados sonoros em torno da radiante voz de Lilian (e isso eles também fazem, e admiravelmente bem); eles superam essa função mais básica e se esmeram em criar um complexo e sincopado tecido eletroacústico extremamente original, que inclui elementos das tradições rítmicas e melódicas do Brasil, Europa e Estados Unidos, além de muitas outras regiões e culturas. Whaa! é o terceiro CD do Zuco e aqui eles exploram novos territórios musicais, primordialmente através do uso variado dos muitos elementos que já fazem parte do som do grupo desde a sua estréia em 1999. A voz de Lilian, encantadoramente elástica, ainda é o centro das atenções, e a sua versatilidade nunca foi demonstrada de forma tão surpreendente, das inflexões sinuosas à la Billie Holliday em “Na Mangueira” ao vocal meigo e sexy em “Mayfly.” E mais: o som da banda se abriu para um clima mais roqueiro - vide o destaque dado às guitarras em “Vou Levar” -, e também incorporou elementos de dancehall e reggae. Lilian Vieira só se deu conta da variedade e beleza da música do seu Brasil natal após se mudar para a Holanda, no final dos anos 80, para estudar canto no Conservatório de Rotterdam. Lá encontrou vários colegas músicos brasileiros com os quais passou a se apresentar regularmente. Essa convivência a ajudou a aprofundar a sua admiração pela música brasileira, ao mesmo tempo que expandiu as suas influências musicais, que passaram a incluir os sons da Europa e dos Estados Unidos. “Eu não queria ficar presa a uma só tradição musical”, afirma Lilian. “O Zuco 103 é quase um produto europeu – é claro que o meu background dá uma inspiração, mas isso rola mais em termos de ritmo.” O baterista Stefan Kruger também tem uma visão bastante abrangente do que entra na receita do som do Zuco 103 – ele caracteriza esse som como “uma mistura de tudo que existe... não ficamos só no jazz, funk ou bossa nova. A gente está continuamente descobrindo novos sons, novas levadas.” Ao tecladista e produtor Stefan Schmid, o Zuco dá a chance de fugir da complexidade formal e das técnicas virtuosísticas do mundo do jazz, sua origem musical . “Quando estou produzindo o Zuco”, declara ele, “quero ficar o mais distante possível de tudo que já fiz antes.” Ele viu esse terceiro disco como uma oportunidade de expandir as já significativas inovações estilísticas do grupo através da combinação de elementos antigos de uma forma nova. Whaa! foi a chance de “trazer de volta o frescor de Outro Lado e misturá-lo com os truques de Tales of High Fever”, finaliza Stefan. Em Whaa!, Schmid e seus colegas foram bem-sucedidos em se distanciar do seu trabalho anterior. Mas, ao mesmo tempo, os fãs não terão nenhum problema em reconhecer os elementos que os atraíram desde a primeira hora ao inusitado universo musical do Zuco. A influência do reggae fica mais clara com a inclusão de duas faixas com vocais do legendário produtor, cantor e compositor Lee “Scratch” Perry. O homem é conhecido não só pelos seus figurinos bizarros (trajes que já incluíram, ao longo dos tempos, brinquedos, pedaços de frutas, coroas feitas em casa e camisetas do Queen), mas também pelo seu comportamento auto-destrutivo (ele só faltou admitir que ateou fogo ao seu próprio estúdio), e acima de tudo por ser um dos maiores talentos surgidos na Jamaica nos anos 60 e 70. A idéia da participação de Perry no Whaa! veio quando o pessoal do Zuco se interessou em usar um sample de uma antiga música sua. Alguém na Crammed Discs, o selo belga do grupo, sugeriu convidar o próprio Perry para fazer uma participação especial, e quando eles souberam que o homem estava a caminho de Amsterdam em sua turnê, conseguiram agendar um encontro num estúdio. Perry topou a parada, apareceu no estúdio, tomou as rédeas da coisa e colocou vocais em duas faixas no ato. A primeira, “Love Is Queen Omega”, é uma bossa nova eletrônica que vai direto ao ponto, incluindo o fantástico vocal de Perry, em torno do qual Lilian dança com as suas letras em português e uma delicada melodia composta por ela mesma, antes de deslizar suavemente para uma harmonização vocal, acompanhando Perry no coro. Essa música e “It’s a Woman’s World” são dois dos destaques do CD. Nenhuma das duas foi construída em cima de uma estrutura rítmica de reggae, mas os vocais de Perry, com seu estilo caracteristicamente jamaicano, e seus comentários bem-humorados, nos remetem aos dias gloriosos do roots reggae e adicionam mais um nível de complexidade estilística a esse disco, que já possui uma beleza caleidoscópica. As outras faixas demonstram diferentes facetas da aclamada mistura de influências pan-étnicas do Zuco. Por exemplo, a incrivelmente charmosa “Duele Le Le”, que se desenvolve em cima de um balanço em 6/8, conta com a participação de Dani Macaco (cantora do grupo de worldbeat espanhol Macaco) nos vocais e fantásticos arranjos de metais. Já “Mayfly” é a canção mais inconfundivelmente brasileira do disco. Nela, um ritmo contagiante conduz a voz suave e luminosa de Lilian através de uma floresta de cordas vagamente misteriosas até uma clareira ensolarada, onde ela dá uma parada para festejar com um coro de anjos. Em “Nhá”, outro exemplo claro de pop brasileiro de categoria internacional, a voz sensual de Lilian é reforçada por um suave e, ao mesmo tempo, insistente groove, levado por um guitarra funkeada e intervenções de rap em português. Em função do sucesso artístico e de crítica dos seus dois primeiros discos, não seria nenhuma surpresa se o pessoal do Zuco simplesmente desse uma relaxada para curtir um pouco, e ficasse produzindo um pouco mais das mesmas coisas, com uma variaçãozinha aqui e ali. Mas - é necessário lhes dar esse crédito - ao invés disso, eles decidiram quebrar a forma e montá-la novamente de uma forma ligeira, mas significativamente diferente. E assim, eles se superaram. De novo.
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Tales of High Fever |
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